Limites

Limites

27.10.10

A perfeita distância


Há palavras que não devem ser ditas, mas guardadas em profundo segredo:
segredo de uma pessoa, apenas de quem o viveu.

Há momentos que não devem ser divididos, mas vividos de longe:
longe o bastante para serem vistos do jeito certo e tratados como necessário.

Há épocas - longas épocas - em que até a mais clara verdade precisa ser negada:
para que se esqueça que é real, para que possa viver além das negações.
Negada para que possa ver-se como de verdade é: além, muito além das circunstâncias.

25.10.10

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Eu acredito no diálogo,

em relações expostas,

em segredos divididos,

em vidas compartilhadas.


2.10.10

NADISMO


Tenho buscado fugir do padrão, do estresse, do excesso de informações, de um modo opressor de viver. Apesar de tentar não fico pensando em como fazer isso, ao contrário, simplesmente não tento, não penso, esqueço.

Venho vendo que há tanta notícia e propaganda, sobretudo virtuais, que estamos nos condicionando a absorver, cada vez mais, menores conteúdos ao invés de nos aprofundarmos em poucas coisas, no que é relevante. Hoje importa mais estar conectado em todas as redes sociais e através delas perceber cada reação publicada do que adensar as que efetivamente importam.

Quarta-feira (29) estava no aeroporto e isso ficou claro. No saguão de embarque, enquanto esperavam, poucos eram os que nada faziam, poucos eram os que absorviam o que o dia havia lhes trazido, depurando emoções ou ligando os conhecimentos ainda soltos. Poucos eram os que se davam conta de que um dia terminava e muita água havia rolado. De chuva em debaixo da ponte.

Alguns lanchavam, outros liam revistas, livros, jornais. Poucos dormiam. Muitos olhavam fixos para seus celulares ávidos por torpedos, emails e conexões. Ah, também usavam-no para falar. Quem não estava ao celular tinha refletida nos olhos a tela do notebook. Não sei se trabalhando ou ligados nas últimas notícias, passavam o tempo fazendo alguma coisa. Pareciam não querer ficar a sós consigo mesmos.

Eu me peguei fazendo nada, acalmando minha cabeça, digerindo as reuniões dos dias anteriores, calando-me por causa de uma discussão, conhecendo-me um pouco mais.

Não é de hoje que faço essa campanha e por ora vou insistir nela: não ao blackberry. Por um mundo de mais reflexão, de mais densidade, de mais ideias, de menos imediatismo. Porque nós não precisamos de tantas coisas supérfluas, precisamos ser relevantes.

29.7.10

20 anos de Brasil

Não é tão difícil buscar na lembrança os tempos nos quais o Brasil era muito mais seguro, mais lúdico, mas também de uma realidade que hoje nos parece tão distante e inacreditável. A geração que hoje tem 20 anos não acompanhou as eleições de 89 ou a campanha pelas Diretas em 84, não ficou na ‘fila do leite’ e na ‘fila da carne’, não conheceu as Fiscais do Sarney e só viu o Jô Soares como entrevistador, perdendo a chance de vê-lo ao lado de Paulo Silvino como o Capitão Gay. (Bem, eles também só tiveram notícia da Leila Lopes como atriz pornô e não como a professorinha da novela Renascer…)

Antes de Collor assumir a Presidência em 15 de março de 1990, o país vinha de uma grande luta pela redemocratização que uniu as principais forças políticas nacionais (Ulisses, Tancredo, Quércia, Franco Montoro, Pedro Simon, Lula, Brizola, Covas, FHC, ACM, Miguel Arraes, Roberto Freire) e artistas em torno de um único ideal: a volta das eleições diretas. A falta de prática política afastara a população dos governantes que desde a época do golpe militar eram eleitos indiretamente ou indicados.

Além da falta de legitimidade dos governantes, a crise econômica ditava os humores do povo que, como eu ainda pequeno, levava seus bancos para a fila da padaria e do açougue para comprar produtos que eram racionados pela baixa produção: leite e carne. O Brasil que hoje tem no Centro-Oeste um dos maiores rebanhos do mundo, há 25 anos tinha cota de leite e carne.

Nosso parque industrial ainda era resquício de meados do século XX quando haviam sido criadas a CSN (40), Petrobras (53), Furnas – p.ex. – (57), o Plano de Metas (governo JK) e do investimento em siderurgia, energia e petroquímica durante o período do “milagre econômico brasileiro” (68 a 73). Com a primeira crise do petróleo em 74 e a necessidade de sua importação, a balança comercial nacional virou em alto déficit e caminhamos lentamente para a recessão.

A prosperidade não durou e a inflação de demanda tornou-se inevitável. Apesar da riqueza gerada, como a indústria não dava vazão à capacidade aquisitiva de parte da população, os produtos manufaturados começaram a escalonar seus preços e alimentou o que, já de volta aos anos 80, convencionaram chamar o Dragão da Inflação.

Voltando ao início do texto, no ano anterior a Collor assumir a Presidência a inflação oficial registrada foi de 1.764%. Esse contexto inflacionário fora de controle, de mudanças de moeda, de desequilíbrio da balança comercial, de desequipamento do parque industrial, de dívida pública elevada (e desconhecida), além da produção legislativa nos últimos 20 anos pautará esse curto levantamento da situação econômica e política que vivemos às vésperas de mais uma eleição.

18.7.10

O Meu "Comer, Rezar, Amar"

Um dia decidi parar e ler minha história. Li e reli, revisei, revirei. Eu estava disposto a recomeçar.
Troquei de cor, de cabelo e de horários. Deixei o suor levar as preocupações e o sal lavar as toxinas que ainda não tinham sido processadas. Vi que precisava renovar.

Uma das coisas que aprendi foi a conhecer os temperos e como eles podem, juntos, criar experiências surpreendentes. Outra é que o tempo de cozimento precisa ser bastante cuidado: nem cru nem escozicado. Depois disso, tratar os sorobôs-de-ontêm como matéria-prima virou diversão. E tudo podia se fazer novo...

Talvez a cozinha tenha sido o início desse recomeço porque te leva a pensar nos cuidados, a escolher a receita, a selecionar os ingredientes, a limpar, preparar, cozer/fritar/assar seja-lá-o-que-for e sempre olhar para não desandar. Só que antes disso tudo você pensa em alguém porque poucos são os que cozinham para si. Geralmente cozinhamos pensando em alguém ou cozinhamos para alguém, e nessa dedicação a nossa vida se abre...

Também voltei a rezar. Demorou muito, muito mais do que um dia eu poderia imaginar. É que o tempo é sutil, e, discretíssimo, chega todos os dias com uma cara normal, banal e comum mas quando se vai deixa algumas histórias que não pareciam ter sido escritas para você. Elas não pareciam suas e provavelmente estavam na lista daquelas que você sempre rejeitara. Fato: o tempo veio e sussurrou alguns casos que ficaram listados na minha ficha corrida.

Enquanto o vento soprava eu não lembrei de rezar e não senti peso ou culpa. Não que as minhas convicções tivessem mudado porque, fosse essa a estratégia do tempo, seria óbvia e mais fácil de ser resistida. Eu me distraí com justificativas. Enquanto me empenhava em desejar lugares mais altos, alguns cansaços ficaram acumulados e justamente nessas frustrações eu depositei a razão da minha distração.

Não foi nada fácil durante esses anos descortinar cada paranóia, cada medo, cada erro, cada fracasso, não foi fácil resistir muitas vezes ao que claramente destoava da fé que ainda carregava. Mas o que conta não são as vezes que você consegue resistir mas sim aquelas em que não. São essas que vão te deixar marcas e te levar cada dia mais longe para o dia do recomeço.

Dentro da lista de erros imperdoáveis, ficou claro que o amor irresponsável é o mais cruel deles. Irresponsável, aqui, não quer dizer lascivo. Falo da responsabilidade que assumimos no dia em que nos dispomos a conquistar alguém e despertar nela o mesmo sentimento que imaginamos começar a sentir. Mas como relações são feitas de muitos desencontros e alguns encontros, saber lidar com o amor a destempo definitivamente não é tão simples como gostaríamos.

Aprender a amar é bastante diferente de aprender a se relacionar porque, se até mesmo o amor pode ser mal entendido, mal interpretado ou desprezado, quiçá um relacionamento. Como o Apóstolo escreveu, o amor não se queixa, não é egoísta, tudo espera, tudo suporta, tudo crê. O amor é além de rótulos, de anéis, de títulos ou alcunhas. O amor vai existir antes de tudo e permanecerá quando os atuais virarem 'ex-qualquer coisa'. Porque é preciso amar as pessoas e cuidar que elas não se machuquem por sua causa. É preciso cuidar das pessoas.

Infelizmente você carregará alguns fardos, alguns dardos, algumas acusações justas - outras injustas - de amores irresponsáveis e também de responsáveis. Mas que se cuide das feridas dos outros antes das suas, que se evitem as feridas na medida do possível até o limite do impossível, que se abstenha de prosseguir quando vir que os infortúnios serão mais presentes que os sorrisos. Porque é preciso amor para começar, amor pra continuar e amor pra recomeçar, mas também é preciso amor para terminar.

Nesse caminho descobri que sempre há um ponto de retorno. Essa é a expressão que tenho carregado comigo: ponto de retorno. Sempre tem o dia do convite, sempre tem o dia do olhar, do falar, do concordar, de deduzir, de seduzir, e sempre tem um ponto em que podemos pensar, pensar, pensar e decidir se iremos continuar. Depois do ponto de retorno essa decisão sobre continuar fica muito mais difícil e dolorosa, mesmo que haja amor.

Comer, rezar e amar estão ligados a prazeres, instintos, a centelhas divinas depositadas em nossas almas. Como tudo que Deus faz, há liberdade de escolha para o homem e podemos, ainda que a contragosto, transformar o alimento em glutonia, a oração em heresia ou idolatria, e o amor em lassidão. Tudo depende de motivo e de foco, do porquê você quer fazer e o que você quer alcançar. Talvez essas sejam as perguntas essenciais na vida...

O que pode parecer paradoxal é que nesses meses olhando pra dentro de mim aprendi a enxergar mais os outros. A surpresa é que quanto mais você cuida de si menos razão você encontra para cuidar de aparências. E quanto mais longe você consegue ficar da vaidade, mais fácil se torna encontrar a essência de todos os prazeres.

6.6.10

As Profecias de Renato Russo

Há cerca de 25 anos a Legião cantava que "somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da Nação, GERAÇÃO COCA-COLAAA". Bom, apenas parte disso se concretizou, afinal, o futuro chegou e nós não o acompanhamos. Talvez o futuro chegue no futuro....Enfim, importa agora falar dessa nossa geração, dos "filhos da revolução".

Não somos burgueses sem religião. Ao contrário disso, talvez hoje vivamos num país mais religioso que nunca. O catolicismo herdado de geração em geração e pouco praticado transformou-se em: catolicismo (tradicionais e carismáticos) + evangélicos + espíritas + qualquer igreja que se funde por aí. A religião é um fenômeno social que não foge da pauta sequer da disputa presidencial. De toda forma, ainda que essa geração busque respostas no espiritualismo, permanece perdida como nunca, continua tentando sobreviver aos novos desafios que lhe foram impostos. Nós vivemos uma vida sem manual de instruções.

Nossa geração é uniformizada mas permite-se agregar a todas as novas tribos que emergem, experimenta toda sorte de novidade, reinventa-se ao fim de cada ciclo e descarta o que já foi usado. Recomeça. Em parte é ótimo que tenhamos a mente aberta, que saiamos ao encontro de novos caminhos. Por outro lado, não chegará uma hora que cansaremos de correr, de mudar de roupa, de hábitos, de religião....de princípios!?!?! (princípios, por onde eles andam?) Não chegará uma hora em que precisaremos deixar de descartar tudo e investir na reconstrução das instituições?

Desafortunadamente estamos desbravando caminhos que serão trilhados pelos nossos filhos. Nós começamos a reinventar o mundo que nossos pais deixaram para nós. Eles, sem culpa, não têm respostas para nos dar; a culpa é nossa que virou tudo de pernas pro ar. Eles foram filhos da estabilidade, da falta de mobilidade social, eles viveram o "milagre econômico". Enquanto a classe média brasileira surgiu com os nossos pais, mingua conosco que, a nosso turno, produzimos mais ricos do que nunca.

Mas essa riqueza que cresce nos leva para onde? Que tipo de pessoas temos nos tornado em nome da geração do ouro, das cifras, de novos mercados, de emergência, de bilhões a mais na balança comercial, da internacionalização da nossa marca? Tenho grande preocupação ao pensar nisso.

Temos cedido um tempo precioso das nossas vidas em nome de espaço no mercado global. Somos estressados, impacientes e vivemos em cidades caóticas com trânsitos quase imóveis. Trabalhamos quase tanto quanto no período da revolução industrial, só que agora com férias e descanso semanal. Todavia, se não morremos pelo pó do carvão, morremos do coração, de infartos e derrames provocados pelo estresse. Cada ano que passa temos mais reconhecimento internacional mas ficamos menos em casa. Ao final de cada mês temos metas a superar, ao final de cada dia temos relatórios a entregar, tarefas a cumprir não importa o tanto de horas extras que isso demande.

Nós não temos estabilidade, não somos mais uma nação preponderantemente de funcionários públicos na qual nossos pais viveram com toda a tranquilidade que isso trazia. Quanta mudança! Eles, "os véios" trabalhavam como engraxates, começavam como contínuos numa empresa e, após décadas, aposentavam-se nessa mesma companhia como diretores ou gerentes. Nós? Coitados! Mudamos de emprego a cada ano ou triênio, somos atraídos por ofertas melhores ou traídos por ofertas menores feitas a profissionais que se disponham a trabalhar em nosso lugar por menos que ganhamos.

Claro, em tudo há dois lados: se por um prisma a estabilidade fazia bem ao convívio da família em virtude de haver menos preocupações e incertezas, por outro, bem, vocês sabem....estamos crescendo, blá blá blá, blá blá blá, blá blá blá.

Se continuarmos assim, seremos sim a "geração do futuro" profetizada pela Legião e fundaremos um novo país. Mas e os nossos filhos, herdarão o que de nós? Melhor dizendo, eles saberão o que é a relação de "Pais e Filhos" ("quero colo, vou fugir de casaa/ posso dormir aqui,com você") que nossos pais nos ensinaram? Estaremos em casa para lhes dizer isso ou estaremos nos escritórios tentando salvar os empregos que pagam nossas contas mas que duram cada vez menos?

Não nos deram essa resposta e não disseram o que precisamos fazer. Mas não culpemos nossos pais. Essa é uma luta que precisaremos vencer sozinhos a fim de que nossos filhos herdem mais do que apenas dinheiro e status. Só assim construiremos um futuro que valerá a pena ser vivido. E tomara que nossos filhos não nos culpem por isso.

5.6.10

Clínica geral

O que uma radiografia da moral brasileira mostraria? Nada que, a olhos nus, um bom clínico geral não pudesse diagnosticar.

A confirmação de que um dos coordenadores da campanha de Dilma negociou com arapongas a elaboração de um dossiê antitucano, é apenas mais um capítulo dessa interminável narrativa brasileira. Na semana em que a pré-candidata petista empatou nas intenções de voto com José Serra, o Presidente Lula foi condenado pela quinta vez por propaganda eleitoral antecipada. Quinta!

Esse processo político corroído por imoralidades não está no começo e nem em seu ápice. De fato, a anestesia injetada há tempos já produziu efeito e tanto povão quanto políticos, iguais em suas hipocrisias, já não se importam mais com os meios utilizados, desde que o país “melhore”, cresça.

Apenas para limitar as incontáveis indecêndias aos partidos líderes, podemos citar a compra de votos pela emenda da reeleição capitaneada pelo falecido Sérgio Motta no governo Fernando Henrique, os mensalões de Lula & Zé “Sai de Retro” Dirceu no Congresso, e de Azeredo em Minas, a quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo -a quem queria-se incriminar – pelo poderoso Palocci, os aloprados da eleição paulista na primeira edição dos dossiês petistas…

Desde que Maluf começou a ser denunciado, repete-se a máxima de que é melhor quem “rouba mas faz” do que aquele que permanece inerte. O ditado regente típico de um povo absolutamente carente mostra-se ainda eficiente quando Dilma alcança Serra na corrida eleitoral. Pouco importa se os métodos são ilegais, pois, no fim das contas, vale a pena. O saldo entre pagar multas de 5 ou 10 mil reais frente ao crescimento de 5, 10, 15 pontos percentuais é altamente positivo. Essa é a matemática que vale. E enquanto continuar a valer a pena…bem, vocês sabem.

Não se engane quem pensa que os políticos são os únicos praticantes dessa distorção. Eles só agem assim porque quem vota neles é o povo que entende que, enquanto o Governo petista apresentar bons índices sociais e econômicos, toda ilegalidade será tolerada. Despersonificado o mito, Lula é o novo Maluf.

E pensar que o Presidente alemão acabou de renunciar ao cargo porque, mesmo sentindo-se mal-interpretado, acham que falou uma bobagem. Ah, se essa moda pega no Brasil…

Perspectiva

A vida é bem mais do que o que conhecemos.