Limites

Limites

28.2.11

Em desenvolvimento

Algumas vezes a tolerância tem mais a ver com a nossa capacidade de olhar o outro com suas qualidades do que propriamente com a gravidade do erro cometido. Por isso desconsideramos erros de quem amamos e nos incomodamos com outros que agem do mesmo jeito.

15.1.11




Sonhos que surgem reais.

Sonhos que aparecem de manhã (ou à tarde - mas ainda a tempo).

Sonhos que falam língua de sonho. E que têm fala doce.

Sonhos que duram um dia, uma conversa e mais um dia debaixo da árvore.

Sonhos que viram saudade e deixam marca de sol. Sonhos.

2.1.11

Fruto e semente


Conheço muita gente e gosto de falar com muitas delas. Em compensação, a outras, sem pudor, prefiro ignorar.

Nessa lista, da forma como vejo, enxergo gente dura, umas arrogantes, outras fracas, influenciáveis, exibicionistas, passivas, corretas, dúbias, voláteis, teimosas, santas e santarronas.

Verdade seja dita, não importa tanto como as vejo mas sim como elas de fato são. Daí a pergunta que fica: elas são assim ou apenas acreditam ser?

O ano começa e os votos de sorte se multiplicam. Todos querem felicidade e desejam sinceramente um ano pleno. Enquanto uns esperam um ano bom como aquele que passou, outros não querem que ele sequer tenha o mesmo cheiro; enquanto alguns vivem um momento de paz e esperam seguir o rumo que encontraram, tantos outros ardem por algo que lhes traga novidade.

Por onde começar? O que não funcionou? Mudar para onde? Fazer a pergunta certa é só o primeiro mas fundamental passo para que os dias seguintes não sejam piores do que aqueles que acabaram de se despedir.

Quando alguma coisa não funciona, quando alguém reclama ou nós mesmos nos frustramos, escolhemos um um novo alvo, bolamos um novo projeto, procuramos novas pessoas, tentamos mudar até boa parte do nosso comportamento. E deixamos tudo para trás, até aquilo que não era ruim. Tendemos sempre, nos recomeços, a abandonar toda a experiência que consideramos não ter dado certo sem perceber que mesmo ali havia coisa a ser aproveitada. Isso é um problema.

Recomeçar - isso não é novidade - fica mais difícil com o passar dos anos para a maior parte das pessoas. Os hábitos, mais sólidos, viram teimosia e surgem como desculpa para não encarar o desgaste das novas tentativas. Se considerarmos o erro como experiência e que quanto mais tempo de vida temos, mais experiência armazenamos, concluiremos que vivemos errando. Essa é a interpretação mais lógica e também mais dura (além de distorcida). Pensar assim ajuda a criar cada vez mais resistência.

Viver mais, começar mais; viver mais, continuar mais. A vida tem um pouco dos dois. Quando desejamos um ano novo, quando fazemos promessas ao cosmo de que "daqui pra frente tudo vai ser diferente", quando prometemos aos nossos amores que a partir daquele dia a vida mudará, só pensamos em zerar a conta, em esquecer a vida acumulada e em levantar novas pilastras. Criamos a ilusão de que tudo até então não passava de uma 'perna seca' que precisa ser amputada (ou implodida).

Porém - ah, porém - acabamos tendo mais de continuidade do que de mudança. Ainda que queiramos produndamente alcançar nossos novos sonhos, ser fiéis às nossas promessas e andar de queixo erguido depois do dever cumprido, não identificamos se a pessoa que queremos ser é a semente de uma nova vida ou se é o fruto de quem nós éramos. Sim, somos ambos.

Plantamos, seivamos, e, por fim, damos frutos que germinarão novamente. E qual deles somos: a árvore ou a semente?

Voltando ao começo da conversa, nós somos aquilo que dizem de nós? Será que nós já tivemos oportunidade de sermos exatamente do jeito que seríamos se não nos tivessem cobrado tanto, se não nos tivessem incentivado tanto? Será que trabalharíamos tanto ou tão pouco se nossas experiências familiares e sociais tivessem sido diferentes? Será que seríamos tão alegres ou azedos se as nossas vidas tivessem sofrido (ou deixado de sofrer) alguns momentos-chave?

E se você tivesse tempo suficiente para se afastar de tudo que te envolve, ao final de um ano seria a mesma pessoa que acredita ser? Quem é santo, ou sério, ou fraco, ou responsável, ou irritante? Quais foram os papéis que aceitamos viver sem ter tempo de descobrir (ou conhecer) quem existe dentro de nós?

No dia que nos conhecermos, será que quereremos mudar? Ou será que continuaremos a achar que somos um projeto pronto?

Seja como for, não podemos deixar de ter em mente que produziremos nossos próprios frutos e que tudo começará de novo curiosamente a partir daí, ou seja, daquilo que já era.

15.11.10

Sob medida

Cada um tem um tamanho, um jeito, uma forma. Cada um tem um gosto, um desejo, uma ideia. Cada um tem um motivo, uma desculpa, uma ilusão. Eu tenho um sofá pequeno que já foi do meu avô. 
Pequeno que um dia foi grande, pequeno de dois lugares e de muitas trocas; pequeno de muitas lembranças. 
Era o lugar onde eu encontrava meu pai lendo, sempre encostado em um dos braços e com as pernas estendidas sobre as almofadas. Também era onde eu, criança, dormia e cabia de corpo inteiro. As pernas aumentaram mas o sofá não mudou. Hoje, ontem e anteontem, como fora ano passado, retrasado e em mais de vinte outros anos, deitei, ajeitei-me e logo dormi. Dormi bem naquele sofá que parece pequeno mas onde sei, mesmo no escuro, como descansar. 
Nem tudo na vida tem o nosso tamanho, vem do nosso jeito ou ao nosso gosto. Existe abraço que não acolhe e mão que não encaixa. Há pessoas diferentes, umas falam e outras calam, umas sonham e outras esquecem. 
Talvez a gente só precise de um sofá velho. Um sofá para contar histórias. De qualquer tamanho, jeito ou forma. Ao seu gosto, que atenda aos seus desejos e te inspire novas ideias. Que te dê novos e bons motivos, ajude-te a inventar uma ou outra desculpa mas também permita viver doces ilusões. Eu tenho um sofá pequeno. Ele já foi do meu avô.

27.10.10

A perfeita distância


Há palavras que não devem ser ditas, mas guardadas em profundo segredo:
segredo de uma pessoa, apenas de quem o viveu.

Há momentos que não devem ser divididos, mas vividos de longe:
longe o bastante para serem vistos do jeito certo e tratados como necessário.

Há épocas - longas épocas - em que até a mais clara verdade precisa ser negada:
para que se esqueça que é real, para que possa viver além das negações.
Negada para que possa ver-se como de verdade é: além, muito além das circunstâncias.

25.10.10

Compartir


Eu acredito no diálogo,

em relações expostas,

em segredos divididos,

em vidas compartilhadas.


2.10.10

NADISMO


Tenho buscado fugir do padrão, do estresse, do excesso de informações, de um modo opressor de viver. Apesar de tentar não fico pensando em como fazer isso, ao contrário, simplesmente não tento, não penso, esqueço.

Venho vendo que há tanta notícia e propaganda, sobretudo virtuais, que estamos nos condicionando a absorver, cada vez mais, menores conteúdos ao invés de nos aprofundarmos em poucas coisas, no que é relevante. Hoje importa mais estar conectado em todas as redes sociais e através delas perceber cada reação publicada do que adensar as que efetivamente importam.

Quarta-feira (29) estava no aeroporto e isso ficou claro. No saguão de embarque, enquanto esperavam, poucos eram os que nada faziam, poucos eram os que absorviam o que o dia havia lhes trazido, depurando emoções ou ligando os conhecimentos ainda soltos. Poucos eram os que se davam conta de que um dia terminava e muita água havia rolado. De chuva em debaixo da ponte.

Alguns lanchavam, outros liam revistas, livros, jornais. Poucos dormiam. Muitos olhavam fixos para seus celulares ávidos por torpedos, emails e conexões. Ah, também usavam-no para falar. Quem não estava ao celular tinha refletida nos olhos a tela do notebook. Não sei se trabalhando ou ligados nas últimas notícias, passavam o tempo fazendo alguma coisa. Pareciam não querer ficar a sós consigo mesmos.

Eu me peguei fazendo nada, acalmando minha cabeça, digerindo as reuniões dos dias anteriores, calando-me por causa de uma discussão, conhecendo-me um pouco mais.

Não é de hoje que faço essa campanha e por ora vou insistir nela: não ao blackberry. Por um mundo de mais reflexão, de mais densidade, de mais ideias, de menos imediatismo. Porque nós não precisamos de tantas coisas supérfluas, precisamos ser relevantes.

29.7.10

20 anos de Brasil

Não é tão difícil buscar na lembrança os tempos nos quais o Brasil era muito mais seguro, mais lúdico, mas também de uma realidade que hoje nos parece tão distante e inacreditável. A geração que hoje tem 20 anos não acompanhou as eleições de 89 ou a campanha pelas Diretas em 84, não ficou na ‘fila do leite’ e na ‘fila da carne’, não conheceu as Fiscais do Sarney e só viu o Jô Soares como entrevistador, perdendo a chance de vê-lo ao lado de Paulo Silvino como o Capitão Gay. (Bem, eles também só tiveram notícia da Leila Lopes como atriz pornô e não como a professorinha da novela Renascer…)

Antes de Collor assumir a Presidência em 15 de março de 1990, o país vinha de uma grande luta pela redemocratização que uniu as principais forças políticas nacionais (Ulisses, Tancredo, Quércia, Franco Montoro, Pedro Simon, Lula, Brizola, Covas, FHC, ACM, Miguel Arraes, Roberto Freire) e artistas em torno de um único ideal: a volta das eleições diretas. A falta de prática política afastara a população dos governantes que desde a época do golpe militar eram eleitos indiretamente ou indicados.

Além da falta de legitimidade dos governantes, a crise econômica ditava os humores do povo que, como eu ainda pequeno, levava seus bancos para a fila da padaria e do açougue para comprar produtos que eram racionados pela baixa produção: leite e carne. O Brasil que hoje tem no Centro-Oeste um dos maiores rebanhos do mundo, há 25 anos tinha cota de leite e carne.

Nosso parque industrial ainda era resquício de meados do século XX quando haviam sido criadas a CSN (40), Petrobras (53), Furnas – p.ex. – (57), o Plano de Metas (governo JK) e do investimento em siderurgia, energia e petroquímica durante o período do “milagre econômico brasileiro” (68 a 73). Com a primeira crise do petróleo em 74 e a necessidade de sua importação, a balança comercial nacional virou em alto déficit e caminhamos lentamente para a recessão.

A prosperidade não durou e a inflação de demanda tornou-se inevitável. Apesar da riqueza gerada, como a indústria não dava vazão à capacidade aquisitiva de parte da população, os produtos manufaturados começaram a escalonar seus preços e alimentou o que, já de volta aos anos 80, convencionaram chamar o Dragão da Inflação.

Voltando ao início do texto, no ano anterior a Collor assumir a Presidência a inflação oficial registrada foi de 1.764%. Esse contexto inflacionário fora de controle, de mudanças de moeda, de desequilíbrio da balança comercial, de desequipamento do parque industrial, de dívida pública elevada (e desconhecida), além da produção legislativa nos últimos 20 anos pautará esse curto levantamento da situação econômica e política que vivemos às vésperas de mais uma eleição.

18.7.10

O Meu "Comer, Rezar, Amar"

Um dia decidi parar e ler minha história. Li e reli, revisei, revirei. Eu estava disposto a recomeçar.
Troquei de cor, de cabelo e de horários. Deixei o suor levar as preocupações e o sal lavar as toxinas que ainda não tinham sido processadas. Vi que precisava renovar.

Uma das coisas que aprendi foi a conhecer os temperos e como eles podem, juntos, criar experiências surpreendentes. Outra é que o tempo de cozimento precisa ser bastante cuidado: nem cru nem escozicado. Depois disso, tratar os sorobôs-de-ontêm como matéria-prima virou diversão. E tudo podia se fazer novo...

Talvez a cozinha tenha sido o início desse recomeço porque te leva a pensar nos cuidados, a escolher a receita, a selecionar os ingredientes, a limpar, preparar, cozer/fritar/assar seja-lá-o-que-for e sempre olhar para não desandar. Só que antes disso tudo você pensa em alguém porque poucos são os que cozinham para si. Geralmente cozinhamos pensando em alguém ou cozinhamos para alguém, e nessa dedicação a nossa vida se abre...

Também voltei a rezar. Demorou muito, muito mais do que um dia eu poderia imaginar. É que o tempo é sutil, e, discretíssimo, chega todos os dias com uma cara normal, banal e comum mas quando se vai deixa algumas histórias que não pareciam ter sido escritas para você. Elas não pareciam suas e provavelmente estavam na lista daquelas que você sempre rejeitara. Fato: o tempo veio e sussurrou alguns casos que ficaram listados na minha ficha corrida.

Enquanto o vento soprava eu não lembrei de rezar e não senti peso ou culpa. Não que as minhas convicções tivessem mudado porque, fosse essa a estratégia do tempo, seria óbvia e mais fácil de ser resistida. Eu me distraí com justificativas. Enquanto me empenhava em desejar lugares mais altos, alguns cansaços ficaram acumulados e justamente nessas frustrações eu depositei a razão da minha distração.

Não foi nada fácil durante esses anos descortinar cada paranóia, cada medo, cada erro, cada fracasso, não foi fácil resistir muitas vezes ao que claramente destoava da fé que ainda carregava. Mas o que conta não são as vezes que você consegue resistir mas sim aquelas em que não. São essas que vão te deixar marcas e te levar cada dia mais longe para o dia do recomeço.

Dentro da lista de erros imperdoáveis, ficou claro que o amor irresponsável é o mais cruel deles. Irresponsável, aqui, não quer dizer lascivo. Falo da responsabilidade que assumimos no dia em que nos dispomos a conquistar alguém e despertar nela o mesmo sentimento que imaginamos começar a sentir. Mas como relações são feitas de muitos desencontros e alguns encontros, saber lidar com o amor a destempo definitivamente não é tão simples como gostaríamos.

Aprender a amar é bastante diferente de aprender a se relacionar porque, se até mesmo o amor pode ser mal entendido, mal interpretado ou desprezado, quiçá um relacionamento. Como o Apóstolo escreveu, o amor não se queixa, não é egoísta, tudo espera, tudo suporta, tudo crê. O amor é além de rótulos, de anéis, de títulos ou alcunhas. O amor vai existir antes de tudo e permanecerá quando os atuais virarem 'ex-qualquer coisa'. Porque é preciso amar as pessoas e cuidar que elas não se machuquem por sua causa. É preciso cuidar das pessoas.

Infelizmente você carregará alguns fardos, alguns dardos, algumas acusações justas - outras injustas - de amores irresponsáveis e também de responsáveis. Mas que se cuide das feridas dos outros antes das suas, que se evitem as feridas na medida do possível até o limite do impossível, que se abstenha de prosseguir quando vir que os infortúnios serão mais presentes que os sorrisos. Porque é preciso amor para começar, amor pra continuar e amor pra recomeçar, mas também é preciso amor para terminar.

Nesse caminho descobri que sempre há um ponto de retorno. Essa é a expressão que tenho carregado comigo: ponto de retorno. Sempre tem o dia do convite, sempre tem o dia do olhar, do falar, do concordar, de deduzir, de seduzir, e sempre tem um ponto em que podemos pensar, pensar, pensar e decidir se iremos continuar. Depois do ponto de retorno essa decisão sobre continuar fica muito mais difícil e dolorosa, mesmo que haja amor.

Comer, rezar e amar estão ligados a prazeres, instintos, a centelhas divinas depositadas em nossas almas. Como tudo que Deus faz, há liberdade de escolha para o homem e podemos, ainda que a contragosto, transformar o alimento em glutonia, a oração em heresia ou idolatria, e o amor em lassidão. Tudo depende de motivo e de foco, do porquê você quer fazer e o que você quer alcançar. Talvez essas sejam as perguntas essenciais na vida...

O que pode parecer paradoxal é que nesses meses olhando pra dentro de mim aprendi a enxergar mais os outros. A surpresa é que quanto mais você cuida de si menos razão você encontra para cuidar de aparências. E quanto mais longe você consegue ficar da vaidade, mais fácil se torna encontrar a essência de todos os prazeres.