Limites

Limites

24.2.22

Futuro do Subjuntivo

É difícil decidir quando culpa e paixão disputam influência sobre as escolhas a serem feitas. Entre projetar um sonho e abdicar dele, os protagonismos se alternam.

Vejo-te perdida mas a sinto perto. Penso em você e descubro o reflexo das minhas aspirações.

Parece um cenário pronto, um reencontro improvável. De tanto crer e ver e saber, me afogo no medo de, quem sabe, de súbito, tudo escapar às mãos. 

Para te ter e fazer o impossível real, preciso deixar meus medos na porta. 

Seja o que Deus quiser: já não sou mais eu. É você, sempre foi você.

Isso e algo mais

Queria estar ao seu lado e segurar suas mãos.

Fazer tudo e fazer você feliz.

Te dar uma trilha sonora e sonhos.

Olhar sem cansar e sorrir com você.

Esquecer o mundo e sonhar.

Fazer um laço e uma aliança.

Te proteger da dor e ouvir cada sussurro do seu coração.

Descobrir uma palavra para te consolar e te abraçar de novo. Até você dormir, segura.

23.2.22

Eu nunca entendi o seu silêncio.
Não tentei descobrir o que pensava 
Jamais perguntei.
Falamos de outras dores, outras cores, não de você.

Sempre te vi quieto, em casa
Talvez pensando no que passou
Sempre no que passou, pouco no que poderia vir.

Imagino que os clássicos que te acompanhavam
Te levavam para muito longe,
Para um lugar de idealizações, para a longínqua perfeição,
À não alcançada realização.

De tão longe voar, para tão distante fugiu.
Tão além chegou que pouco pudemos conversar.
A força da voz e da razão escondiam sua tão flagrante fraqueza,
Sua incapacidade de se dar com ternura.

A têmpora enervecida falava mais alto que o amor calado.
Tão pouco, parecia envergonhado.
Envergonhado, quase enlutado. Entalado.

Não conheci os caminhos que te cobriram de pó.
Não conseguirei saber se seu coração batia calmo ou de tão perdido preferiu a escuridão.
Só posso lembrar do que não foi dividido, do que não foi ensinado,
do que não foi mostrado, do que não se pode consertar.

7.10.15

O verbo Ser



Hasteei a vela e naveguei. Quando percebi já não via terra. Fui para longe e me perdi.
A cada légua corrida, a referência perdida. Perdido, distante e remoto.
Vivendo entre tempestades, cria no dia em que o céu desanuviaria.
De tanto olhar para o alto e procurar sinais de bonança, desisti de contar os dias.
A chuva passou. O mar não baixou. Não há um ramo verde.
É o dilúvio da minha refundação.

Ainda há muito que se navegar.
Porque é preciso.
Tanto quanto. Viver. Preciso.
Quando for novamente inundado, reviverei.
Afogado por novos sonhos, navegarei.
Navegarei. Para longe, para dentro. Para outras terras onde renascerei.

5.3.12

A luz dos olhos teus

Em qual curva, pelo caminho, ficou a ternura? Onde perdemos a naturalidade? Como não vimos que amar passou a ser treinado, motivo de vigília? Por que os corações se afastaram e as mãos cerraram, que a voz mudou? Onde cada um estava? Por que fugimos um do outro? 

14.6.11

Na montanha

Bem-aventurados os que erram e aprendem.

Bem-aventurados os que não são inflexíveis.

Bem-aventurados os que escutam e os que sabem falar.

Bem-aventurados os que duvidam e os que acreditam.

Bem-aventurados os que refletem.

Bem-aventurados os que não julgam e dão novas chances.

Bem-aventurados os que compartilham.

25.3.11

Citação


Com o devido crédito à Revista Vida Simples e a Eugenio Mussak, edição 103, março 2011



"Sagrada é a vida que vale a pena, que não compactua com o destrutivo, que não se contenta com o mínimo, que busca o excelente, que distribui compaixão, afeto livre, amor verdadeiro. Lugar sagrado é o próprio corpo, que merece cuidado; é a mente, que precisa de conhecimento; é a emoção, que precisa do belo. Lugar sagrado é o espaço ao nosso redor, que conquistamos com nossa própria energia, e que será tão maior quanto for nossa intensidade de viver."

Subscrevo sem alterar uma vírgula. Quando crescer, quero ser Eugenio Mussak.

17.3.11

(Ponto de) Inflexão



Também poderia chamar esse conjunto de linhas de "Curvatura" por dar tanto a expressão do peso que verga quanto da mudança de rota. Preferi a "Inflexão" porque, apesar de significar o mesmo, começa com as mesmas letras de "introspecção" e termina com as de "reflexão", o que de fato pretendo fazer": refletir para dentro.

À medida que a vida passa, experiências sucedem-se e fatos suicidam-se à minha frente. Sempre me disseram que quanto mais somos experimentados, maior a sabedoria e sempre um dia terminamos por entender dores e amores, a diagnosticar más intenções, a superar negações e frustrações, a sermos cada dia melhores, mais compreensivos e compassivos.

Por enquanto tenho a leve impressão de que a coisa funciona um pouco diferente. Quais não são os "a40tados" ou mais que, sólidos em suas carreiras e com as famílias definidas [definidas muitas vezes tragicamente por casamentos dilacerados - desfeitos precocemente ou carregados ao peso de correntes presas ao pescoço], não têm a mínima ideia de quanto tempo já caminharam perdidos no meio da mata e o quanto esse enclausuramento lhes custou de vida plena. Quantos e tantos, já na "idade do aguenta", não conseguem discernir marcas de cicatrizes mas gabam-se do peso dos anos, dos cabelos já apagados e das rugas de infelicidade que carregam como desculpa para seus rompantes de desamor.

Ainda não haviam me dito que a vida não é linear, no máximo cochicharam que ela traz surpresas. Sempre ouvi que o acúmulo de anos, de relacionamentos e de histórias era um estoque inexorável de conhecimento, uma verdadeira preparação que o ciclo natural nos impunha para instruirmos e conduzirmos nossas relações em suas complexidades singulares e evolutivas.

Esqueceram-se de me segredar que todo esse cansativo condicionamento mental e emocional, muitas vezes de nada serve e para nada presta senão para fazer-nos penitenciarmo-nos por achar que permanecemos imensamente despreparados e incompetentes para lidar com as nossas próprias limitações, para criarmos laços maduros, densos e sinceros. Esqueceram-se de me dizer que enquanto nos condicionamos até fisicamente para os anos da maturidade, ficamos absortos em engano porque não há quem possa preparar-se para o imprevisto.

"Sim, nós podemos!" aprender a conhecer nossas reações, nossas deficiências e dirigir nossas ações a fim de que elas moldem o nosso caráter. "Sim, nós podemos!" escolher a forma como nos portaremos ainda que não nos seja dado escolher a estrada que trilharemos. Sim, nós DEVEMOS separar tempo para o autoconhecimento e intensa, constante, interminável e árdua tarefa de sermos absolutamente sinceros conosco, assumindo todos os nossos defeitos, desvios de caráter, todos os desejos impronunciáveis e pensamentos despojados de qualquer virtude que vivem ao redor dos nossos ideiais antigos que, mesmo belos, foram sufocados pelo homem ingrato que acabamos nos tornando.

Se tornamo-nos ingratos é porque deixamos orgulho, vaidade e ira apossarem-se dos nossos punhos para serem os vigadores da nossa fama. Mas volto a dizer o que não me disseram: nós podemos. Moldar o caráter é sim uma tarefa diária e de uma vigilância constante. Ainda que o seu desejo mais natural, que o seu instinto mais profundo seja o de querer bem, o de ser estritamente ético e inabalável, isso não é definitivo. Ainda que a bondade seja seu sobrenome, ainda que o mal pronunciar jamais tenha feito parte do seu vocabulário até hoje, tenho certeza ao dizer que moldar o caráter é sim uma tarefa diária e inacabada.

Nossas boas intenções sempre serão tentadas, nossa ética sempre será colocada à prova, nossa vaidade sempre será instigada até o dia em que uma fresta permita que a despressurização dê início à nossa queda.

Meus amigos, o caráter é MUTÁVEL e isso é bom. Bom para que saibamos que nenhum bem existente em nós procede de nós mesmos, bom para que saibamos que somos propensos a querer o mal, a cobiçar a riqueza alheia e que, mesmo diante dos deslizes que essas deficiências podem carregar, ainda temos chance de recomeçar e termos os nossos caráteres remodelados para buscar uma reação diferente quando a vida nos aprontar outra de suas imprevisões.

Até hoje a minha história de vida não me permitiu ser equilibrado, coerente, manso ou sábio para aconselhar e confortar os conhecidos a quem amo e os desconhecidos que posso vir a amar. Sei apenas que tenho precisado, ou melhor, tenho tido a mais extrema NECESSIDADE de conhecer-me profundamente, em ter meus instintos perscrutados, meus sonhos verdadeiros descortinados para poder assumir-me diante de mim e dos outros sem enganos, sem estratégias de conquista, sem aparência de promessas que não poderei cumprir.

Definitivamente, ou pelo menos por hoje, não quero experiência nem conselhos a dar, quero apenas e como nunca conhecer os segredos do meu coração, os espasmos da minha alma e, com isso, definir meu caráter.

28.2.11

Em desenvolvimento

Algumas vezes a tolerância tem mais a ver com a nossa capacidade de olhar o outro com suas qualidades do que propriamente com a gravidade do erro cometido. Por isso desconsideramos erros de quem amamos e nos incomodamos com outros que agem do mesmo jeito.

15.1.11




Sonhos que surgem reais.

Sonhos que aparecem de manhã (ou à tarde - mas ainda a tempo).

Sonhos que falam língua de sonho. E que têm fala doce.

Sonhos que duram um dia, uma conversa e mais um dia debaixo da árvore.

Sonhos que viram saudade e deixam marca de sol. Sonhos.

2.1.11

Fruto e semente


Conheço muita gente e gosto de falar com muitas delas. Em compensação, a outras, sem pudor, prefiro ignorar.

Nessa lista, da forma como vejo, enxergo gente dura, umas arrogantes, outras fracas, influenciáveis, exibicionistas, passivas, corretas, dúbias, voláteis, teimosas, santas e santarronas.

Verdade seja dita, não importa tanto como as vejo mas sim como elas de fato são. Daí a pergunta que fica: elas são assim ou apenas acreditam ser?

O ano começa e os votos de sorte se multiplicam. Todos querem felicidade e desejam sinceramente um ano pleno. Enquanto uns esperam um ano bom como aquele que passou, outros não querem que ele sequer tenha o mesmo cheiro; enquanto alguns vivem um momento de paz e esperam seguir o rumo que encontraram, tantos outros ardem por algo que lhes traga novidade.

Por onde começar? O que não funcionou? Mudar para onde? Fazer a pergunta certa é só o primeiro mas fundamental passo para que os dias seguintes não sejam piores do que aqueles que acabaram de se despedir.

Quando alguma coisa não funciona, quando alguém reclama ou nós mesmos nos frustramos, escolhemos um um novo alvo, bolamos um novo projeto, procuramos novas pessoas, tentamos mudar até boa parte do nosso comportamento. E deixamos tudo para trás, até aquilo que não era ruim. Tendemos sempre, nos recomeços, a abandonar toda a experiência que consideramos não ter dado certo sem perceber que mesmo ali havia coisa a ser aproveitada. Isso é um problema.

Recomeçar - isso não é novidade - fica mais difícil com o passar dos anos para a maior parte das pessoas. Os hábitos, mais sólidos, viram teimosia e surgem como desculpa para não encarar o desgaste das novas tentativas. Se considerarmos o erro como experiência e que quanto mais tempo de vida temos, mais experiência armazenamos, concluiremos que vivemos errando. Essa é a interpretação mais lógica e também mais dura (além de distorcida). Pensar assim ajuda a criar cada vez mais resistência.

Viver mais, começar mais; viver mais, continuar mais. A vida tem um pouco dos dois. Quando desejamos um ano novo, quando fazemos promessas ao cosmo de que "daqui pra frente tudo vai ser diferente", quando prometemos aos nossos amores que a partir daquele dia a vida mudará, só pensamos em zerar a conta, em esquecer a vida acumulada e em levantar novas pilastras. Criamos a ilusão de que tudo até então não passava de uma 'perna seca' que precisa ser amputada (ou implodida).

Porém - ah, porém - acabamos tendo mais de continuidade do que de mudança. Ainda que queiramos produndamente alcançar nossos novos sonhos, ser fiéis às nossas promessas e andar de queixo erguido depois do dever cumprido, não identificamos se a pessoa que queremos ser é a semente de uma nova vida ou se é o fruto de quem nós éramos. Sim, somos ambos.

Plantamos, seivamos, e, por fim, damos frutos que germinarão novamente. E qual deles somos: a árvore ou a semente?

Voltando ao começo da conversa, nós somos aquilo que dizem de nós? Será que nós já tivemos oportunidade de sermos exatamente do jeito que seríamos se não nos tivessem cobrado tanto, se não nos tivessem incentivado tanto? Será que trabalharíamos tanto ou tão pouco se nossas experiências familiares e sociais tivessem sido diferentes? Será que seríamos tão alegres ou azedos se as nossas vidas tivessem sofrido (ou deixado de sofrer) alguns momentos-chave?

E se você tivesse tempo suficiente para se afastar de tudo que te envolve, ao final de um ano seria a mesma pessoa que acredita ser? Quem é santo, ou sério, ou fraco, ou responsável, ou irritante? Quais foram os papéis que aceitamos viver sem ter tempo de descobrir (ou conhecer) quem existe dentro de nós?

No dia que nos conhecermos, será que quereremos mudar? Ou será que continuaremos a achar que somos um projeto pronto?

Seja como for, não podemos deixar de ter em mente que produziremos nossos próprios frutos e que tudo começará de novo curiosamente a partir daí, ou seja, daquilo que já era.

15.11.10

Sob medida

Cada um tem um tamanho, um jeito, uma forma. Cada um tem um gosto, um desejo, uma ideia. Cada um tem um motivo, uma desculpa, uma ilusão. Eu tenho um sofá pequeno que já foi do meu avô. 
Pequeno que um dia foi grande, pequeno de dois lugares e de muitas trocas; pequeno de muitas lembranças. 
Era o lugar onde eu encontrava meu pai lendo, sempre encostado em um dos braços e com as pernas estendidas sobre as almofadas. Também era onde eu, criança, dormia e cabia de corpo inteiro. As pernas aumentaram mas o sofá não mudou. Hoje, ontem e anteontem, como fora ano passado, retrasado e em mais de vinte outros anos, deitei, ajeitei-me e logo dormi. Dormi bem naquele sofá que parece pequeno mas onde sei, mesmo no escuro, como descansar. 
Nem tudo na vida tem o nosso tamanho, vem do nosso jeito ou ao nosso gosto. Existe abraço que não acolhe e mão que não encaixa. Há pessoas diferentes, umas falam e outras calam, umas sonham e outras esquecem. 
Talvez a gente só precise de um sofá velho. Um sofá para contar histórias. De qualquer tamanho, jeito ou forma. Ao seu gosto, que atenda aos seus desejos e te inspire novas ideias. Que te dê novos e bons motivos, ajude-te a inventar uma ou outra desculpa mas também permita viver doces ilusões. Eu tenho um sofá pequeno. Ele já foi do meu avô.

27.10.10

A perfeita distância


Há palavras que não devem ser ditas, mas guardadas em profundo segredo:
segredo de uma pessoa, apenas de quem o viveu.

Há momentos que não devem ser divididos, mas vividos de longe:
longe o bastante para serem vistos do jeito certo e tratados como necessário.

Há épocas - longas épocas - em que até a mais clara verdade precisa ser negada:
para que se esqueça que é real, para que possa viver além das negações.
Negada para que possa ver-se como de verdade é: além, muito além das circunstâncias.

25.10.10

Compartir


Eu acredito no diálogo,

em relações expostas,

em segredos divididos,

em vidas compartilhadas.


2.10.10

NADISMO


Tenho buscado fugir do padrão, do estresse, do excesso de informações, de um modo opressor de viver. Apesar de tentar não fico pensando em como fazer isso, ao contrário, simplesmente não tento, não penso, esqueço.

Venho vendo que há tanta notícia e propaganda, sobretudo virtuais, que estamos nos condicionando a absorver, cada vez mais, menores conteúdos ao invés de nos aprofundarmos em poucas coisas, no que é relevante. Hoje importa mais estar conectado em todas as redes sociais e através delas perceber cada reação publicada do que adensar as que efetivamente importam.

Quarta-feira (29) estava no aeroporto e isso ficou claro. No saguão de embarque, enquanto esperavam, poucos eram os que nada faziam, poucos eram os que absorviam o que o dia havia lhes trazido, depurando emoções ou ligando os conhecimentos ainda soltos. Poucos eram os que se davam conta de que um dia terminava e muita água havia rolado. De chuva em debaixo da ponte.

Alguns lanchavam, outros liam revistas, livros, jornais. Poucos dormiam. Muitos olhavam fixos para seus celulares ávidos por torpedos, emails e conexões. Ah, também usavam-no para falar. Quem não estava ao celular tinha refletida nos olhos a tela do notebook. Não sei se trabalhando ou ligados nas últimas notícias, passavam o tempo fazendo alguma coisa. Pareciam não querer ficar a sós consigo mesmos.

Eu me peguei fazendo nada, acalmando minha cabeça, digerindo as reuniões dos dias anteriores, calando-me por causa de uma discussão, conhecendo-me um pouco mais.

Não é de hoje que faço essa campanha e por ora vou insistir nela: não ao blackberry. Por um mundo de mais reflexão, de mais densidade, de mais ideias, de menos imediatismo. Porque nós não precisamos de tantas coisas supérfluas, precisamos ser relevantes.

29.7.10

20 anos de Brasil

Não é tão difícil buscar na lembrança os tempos nos quais o Brasil era muito mais seguro, mais lúdico, mas também de uma realidade que hoje nos parece tão distante e inacreditável. A geração que hoje tem 20 anos não acompanhou as eleições de 89 ou a campanha pelas Diretas em 84, não ficou na ‘fila do leite’ e na ‘fila da carne’, não conheceu as Fiscais do Sarney e só viu o Jô Soares como entrevistador, perdendo a chance de vê-lo ao lado de Paulo Silvino como o Capitão Gay. (Bem, eles também só tiveram notícia da Leila Lopes como atriz pornô e não como a professorinha da novela Renascer…)

Antes de Collor assumir a Presidência em 15 de março de 1990, o país vinha de uma grande luta pela redemocratização que uniu as principais forças políticas nacionais (Ulisses, Tancredo, Quércia, Franco Montoro, Pedro Simon, Lula, Brizola, Covas, FHC, ACM, Miguel Arraes, Roberto Freire) e artistas em torno de um único ideal: a volta das eleições diretas. A falta de prática política afastara a população dos governantes que desde a época do golpe militar eram eleitos indiretamente ou indicados.

Além da falta de legitimidade dos governantes, a crise econômica ditava os humores do povo que, como eu ainda pequeno, levava seus bancos para a fila da padaria e do açougue para comprar produtos que eram racionados pela baixa produção: leite e carne. O Brasil que hoje tem no Centro-Oeste um dos maiores rebanhos do mundo, há 25 anos tinha cota de leite e carne.

Nosso parque industrial ainda era resquício de meados do século XX quando haviam sido criadas a CSN (40), Petrobras (53), Furnas – p.ex. – (57), o Plano de Metas (governo JK) e do investimento em siderurgia, energia e petroquímica durante o período do “milagre econômico brasileiro” (68 a 73). Com a primeira crise do petróleo em 74 e a necessidade de sua importação, a balança comercial nacional virou em alto déficit e caminhamos lentamente para a recessão.

A prosperidade não durou e a inflação de demanda tornou-se inevitável. Apesar da riqueza gerada, como a indústria não dava vazão à capacidade aquisitiva de parte da população, os produtos manufaturados começaram a escalonar seus preços e alimentou o que, já de volta aos anos 80, convencionaram chamar o Dragão da Inflação.

Voltando ao início do texto, no ano anterior a Collor assumir a Presidência a inflação oficial registrada foi de 1.764%. Esse contexto inflacionário fora de controle, de mudanças de moeda, de desequilíbrio da balança comercial, de desequipamento do parque industrial, de dívida pública elevada (e desconhecida), além da produção legislativa nos últimos 20 anos pautará esse curto levantamento da situação econômica e política que vivemos às vésperas de mais uma eleição.

18.7.10

O Meu "Comer, Rezar, Amar"

Um dia decidi parar e ler minha história. Li e reli, revisei, revirei. Eu estava disposto a recomeçar.
Troquei de cor, de cabelo e de horários. Deixei o suor levar as preocupações e o sal lavar as toxinas que ainda não tinham sido processadas. Vi que precisava renovar.

Uma das coisas que aprendi foi a conhecer os temperos e como eles podem, juntos, criar experiências surpreendentes. Outra é que o tempo de cozimento precisa ser bastante cuidado: nem cru nem escozicado. Depois disso, tratar os sorobôs-de-ontêm como matéria-prima virou diversão. E tudo podia se fazer novo...

Talvez a cozinha tenha sido o início desse recomeço porque te leva a pensar nos cuidados, a escolher a receita, a selecionar os ingredientes, a limpar, preparar, cozer/fritar/assar seja-lá-o-que-for e sempre olhar para não desandar. Só que antes disso tudo você pensa em alguém porque poucos são os que cozinham para si. Geralmente cozinhamos pensando em alguém ou cozinhamos para alguém, e nessa dedicação a nossa vida se abre...

Também voltei a rezar. Demorou muito, muito mais do que um dia eu poderia imaginar. É que o tempo é sutil, e, discretíssimo, chega todos os dias com uma cara normal, banal e comum mas quando se vai deixa algumas histórias que não pareciam ter sido escritas para você. Elas não pareciam suas e provavelmente estavam na lista daquelas que você sempre rejeitara. Fato: o tempo veio e sussurrou alguns casos que ficaram listados na minha ficha corrida.

Enquanto o vento soprava eu não lembrei de rezar e não senti peso ou culpa. Não que as minhas convicções tivessem mudado porque, fosse essa a estratégia do tempo, seria óbvia e mais fácil de ser resistida. Eu me distraí com justificativas. Enquanto me empenhava em desejar lugares mais altos, alguns cansaços ficaram acumulados e justamente nessas frustrações eu depositei a razão da minha distração.

Não foi nada fácil durante esses anos descortinar cada paranóia, cada medo, cada erro, cada fracasso, não foi fácil resistir muitas vezes ao que claramente destoava da fé que ainda carregava. Mas o que conta não são as vezes que você consegue resistir mas sim aquelas em que não. São essas que vão te deixar marcas e te levar cada dia mais longe para o dia do recomeço.

Dentro da lista de erros imperdoáveis, ficou claro que o amor irresponsável é o mais cruel deles. Irresponsável, aqui, não quer dizer lascivo. Falo da responsabilidade que assumimos no dia em que nos dispomos a conquistar alguém e despertar nela o mesmo sentimento que imaginamos começar a sentir. Mas como relações são feitas de muitos desencontros e alguns encontros, saber lidar com o amor a destempo definitivamente não é tão simples como gostaríamos.

Aprender a amar é bastante diferente de aprender a se relacionar porque, se até mesmo o amor pode ser mal entendido, mal interpretado ou desprezado, quiçá um relacionamento. Como o Apóstolo escreveu, o amor não se queixa, não é egoísta, tudo espera, tudo suporta, tudo crê. O amor é além de rótulos, de anéis, de títulos ou alcunhas. O amor vai existir antes de tudo e permanecerá quando os atuais virarem 'ex-qualquer coisa'. Porque é preciso amar as pessoas e cuidar que elas não se machuquem por sua causa. É preciso cuidar das pessoas.

Infelizmente você carregará alguns fardos, alguns dardos, algumas acusações justas - outras injustas - de amores irresponsáveis e também de responsáveis. Mas que se cuide das feridas dos outros antes das suas, que se evitem as feridas na medida do possível até o limite do impossível, que se abstenha de prosseguir quando vir que os infortúnios serão mais presentes que os sorrisos. Porque é preciso amor para começar, amor pra continuar e amor pra recomeçar, mas também é preciso amor para terminar.

Nesse caminho descobri que sempre há um ponto de retorno. Essa é a expressão que tenho carregado comigo: ponto de retorno. Sempre tem o dia do convite, sempre tem o dia do olhar, do falar, do concordar, de deduzir, de seduzir, e sempre tem um ponto em que podemos pensar, pensar, pensar e decidir se iremos continuar. Depois do ponto de retorno essa decisão sobre continuar fica muito mais difícil e dolorosa, mesmo que haja amor.

Comer, rezar e amar estão ligados a prazeres, instintos, a centelhas divinas depositadas em nossas almas. Como tudo que Deus faz, há liberdade de escolha para o homem e podemos, ainda que a contragosto, transformar o alimento em glutonia, a oração em heresia ou idolatria, e o amor em lassidão. Tudo depende de motivo e de foco, do porquê você quer fazer e o que você quer alcançar. Talvez essas sejam as perguntas essenciais na vida...

O que pode parecer paradoxal é que nesses meses olhando pra dentro de mim aprendi a enxergar mais os outros. A surpresa é que quanto mais você cuida de si menos razão você encontra para cuidar de aparências. E quanto mais longe você consegue ficar da vaidade, mais fácil se torna encontrar a essência de todos os prazeres.

6.6.10

As Profecias de Renato Russo

Há cerca de 25 anos a Legião cantava que "somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da Nação, GERAÇÃO COCA-COLAAA". Bom, apenas parte disso se concretizou, afinal, o futuro chegou e nós não o acompanhamos. Talvez o futuro chegue no futuro....Enfim, importa agora falar dessa nossa geração, dos "filhos da revolução".

Não somos burgueses sem religião. Ao contrário disso, talvez hoje vivamos num país mais religioso que nunca. O catolicismo herdado de geração em geração e pouco praticado transformou-se em: catolicismo (tradicionais e carismáticos) + evangélicos + espíritas + qualquer igreja que se funde por aí. A religião é um fenômeno social que não foge da pauta sequer da disputa presidencial. De toda forma, ainda que essa geração busque respostas no espiritualismo, permanece perdida como nunca, continua tentando sobreviver aos novos desafios que lhe foram impostos. Nós vivemos uma vida sem manual de instruções.

Nossa geração é uniformizada mas permite-se agregar a todas as novas tribos que emergem, experimenta toda sorte de novidade, reinventa-se ao fim de cada ciclo e descarta o que já foi usado. Recomeça. Em parte é ótimo que tenhamos a mente aberta, que saiamos ao encontro de novos caminhos. Por outro lado, não chegará uma hora que cansaremos de correr, de mudar de roupa, de hábitos, de religião....de princípios!?!?! (princípios, por onde eles andam?) Não chegará uma hora em que precisaremos deixar de descartar tudo e investir na reconstrução das instituições?

Desafortunadamente estamos desbravando caminhos que serão trilhados pelos nossos filhos. Nós começamos a reinventar o mundo que nossos pais deixaram para nós. Eles, sem culpa, não têm respostas para nos dar; a culpa é nossa que virou tudo de pernas pro ar. Eles foram filhos da estabilidade, da falta de mobilidade social, eles viveram o "milagre econômico". Enquanto a classe média brasileira surgiu com os nossos pais, mingua conosco que, a nosso turno, produzimos mais ricos do que nunca.

Mas essa riqueza que cresce nos leva para onde? Que tipo de pessoas temos nos tornado em nome da geração do ouro, das cifras, de novos mercados, de emergência, de bilhões a mais na balança comercial, da internacionalização da nossa marca? Tenho grande preocupação ao pensar nisso.

Temos cedido um tempo precioso das nossas vidas em nome de espaço no mercado global. Somos estressados, impacientes e vivemos em cidades caóticas com trânsitos quase imóveis. Trabalhamos quase tanto quanto no período da revolução industrial, só que agora com férias e descanso semanal. Todavia, se não morremos pelo pó do carvão, morremos do coração, de infartos e derrames provocados pelo estresse. Cada ano que passa temos mais reconhecimento internacional mas ficamos menos em casa. Ao final de cada mês temos metas a superar, ao final de cada dia temos relatórios a entregar, tarefas a cumprir não importa o tanto de horas extras que isso demande.

Nós não temos estabilidade, não somos mais uma nação preponderantemente de funcionários públicos na qual nossos pais viveram com toda a tranquilidade que isso trazia. Quanta mudança! Eles, "os véios" trabalhavam como engraxates, começavam como contínuos numa empresa e, após décadas, aposentavam-se nessa mesma companhia como diretores ou gerentes. Nós? Coitados! Mudamos de emprego a cada ano ou triênio, somos atraídos por ofertas melhores ou traídos por ofertas menores feitas a profissionais que se disponham a trabalhar em nosso lugar por menos que ganhamos.

Claro, em tudo há dois lados: se por um prisma a estabilidade fazia bem ao convívio da família em virtude de haver menos preocupações e incertezas, por outro, bem, vocês sabem....estamos crescendo, blá blá blá, blá blá blá, blá blá blá.

Se continuarmos assim, seremos sim a "geração do futuro" profetizada pela Legião e fundaremos um novo país. Mas e os nossos filhos, herdarão o que de nós? Melhor dizendo, eles saberão o que é a relação de "Pais e Filhos" ("quero colo, vou fugir de casaa/ posso dormir aqui,com você") que nossos pais nos ensinaram? Estaremos em casa para lhes dizer isso ou estaremos nos escritórios tentando salvar os empregos que pagam nossas contas mas que duram cada vez menos?

Não nos deram essa resposta e não disseram o que precisamos fazer. Mas não culpemos nossos pais. Essa é uma luta que precisaremos vencer sozinhos a fim de que nossos filhos herdem mais do que apenas dinheiro e status. Só assim construiremos um futuro que valerá a pena ser vivido. E tomara que nossos filhos não nos culpem por isso.