Limites

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6.6.10

As Profecias de Renato Russo

Há cerca de 25 anos a Legião cantava que "somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da Nação, GERAÇÃO COCA-COLAAA". Bom, apenas parte disso se concretizou, afinal, o futuro chegou e nós não o acompanhamos. Talvez o futuro chegue no futuro....Enfim, importa agora falar dessa nossa geração, dos "filhos da revolução".

Não somos burgueses sem religião. Ao contrário disso, talvez hoje vivamos num país mais religioso que nunca. O catolicismo herdado de geração em geração e pouco praticado transformou-se em: catolicismo (tradicionais e carismáticos) + evangélicos + espíritas + qualquer igreja que se funde por aí. A religião é um fenômeno social que não foge da pauta sequer da disputa presidencial. De toda forma, ainda que essa geração busque respostas no espiritualismo, permanece perdida como nunca, continua tentando sobreviver aos novos desafios que lhe foram impostos. Nós vivemos uma vida sem manual de instruções.

Nossa geração é uniformizada mas permite-se agregar a todas as novas tribos que emergem, experimenta toda sorte de novidade, reinventa-se ao fim de cada ciclo e descarta o que já foi usado. Recomeça. Em parte é ótimo que tenhamos a mente aberta, que saiamos ao encontro de novos caminhos. Por outro lado, não chegará uma hora que cansaremos de correr, de mudar de roupa, de hábitos, de religião....de princípios!?!?! (princípios, por onde eles andam?) Não chegará uma hora em que precisaremos deixar de descartar tudo e investir na reconstrução das instituições?

Desafortunadamente estamos desbravando caminhos que serão trilhados pelos nossos filhos. Nós começamos a reinventar o mundo que nossos pais deixaram para nós. Eles, sem culpa, não têm respostas para nos dar; a culpa é nossa que virou tudo de pernas pro ar. Eles foram filhos da estabilidade, da falta de mobilidade social, eles viveram o "milagre econômico". Enquanto a classe média brasileira surgiu com os nossos pais, mingua conosco que, a nosso turno, produzimos mais ricos do que nunca.

Mas essa riqueza que cresce nos leva para onde? Que tipo de pessoas temos nos tornado em nome da geração do ouro, das cifras, de novos mercados, de emergência, de bilhões a mais na balança comercial, da internacionalização da nossa marca? Tenho grande preocupação ao pensar nisso.

Temos cedido um tempo precioso das nossas vidas em nome de espaço no mercado global. Somos estressados, impacientes e vivemos em cidades caóticas com trânsitos quase imóveis. Trabalhamos quase tanto quanto no período da revolução industrial, só que agora com férias e descanso semanal. Todavia, se não morremos pelo pó do carvão, morremos do coração, de infartos e derrames provocados pelo estresse. Cada ano que passa temos mais reconhecimento internacional mas ficamos menos em casa. Ao final de cada mês temos metas a superar, ao final de cada dia temos relatórios a entregar, tarefas a cumprir não importa o tanto de horas extras que isso demande.

Nós não temos estabilidade, não somos mais uma nação preponderantemente de funcionários públicos na qual nossos pais viveram com toda a tranquilidade que isso trazia. Quanta mudança! Eles, "os véios" trabalhavam como engraxates, começavam como contínuos numa empresa e, após décadas, aposentavam-se nessa mesma companhia como diretores ou gerentes. Nós? Coitados! Mudamos de emprego a cada ano ou triênio, somos atraídos por ofertas melhores ou traídos por ofertas menores feitas a profissionais que se disponham a trabalhar em nosso lugar por menos que ganhamos.

Claro, em tudo há dois lados: se por um prisma a estabilidade fazia bem ao convívio da família em virtude de haver menos preocupações e incertezas, por outro, bem, vocês sabem....estamos crescendo, blá blá blá, blá blá blá, blá blá blá.

Se continuarmos assim, seremos sim a "geração do futuro" profetizada pela Legião e fundaremos um novo país. Mas e os nossos filhos, herdarão o que de nós? Melhor dizendo, eles saberão o que é a relação de "Pais e Filhos" ("quero colo, vou fugir de casaa/ posso dormir aqui,com você") que nossos pais nos ensinaram? Estaremos em casa para lhes dizer isso ou estaremos nos escritórios tentando salvar os empregos que pagam nossas contas mas que duram cada vez menos?

Não nos deram essa resposta e não disseram o que precisamos fazer. Mas não culpemos nossos pais. Essa é uma luta que precisaremos vencer sozinhos a fim de que nossos filhos herdem mais do que apenas dinheiro e status. Só assim construiremos um futuro que valerá a pena ser vivido. E tomara que nossos filhos não nos culpem por isso.

5.6.10

Clínica geral

O que uma radiografia da moral brasileira mostraria? Nada que, a olhos nus, um bom clínico geral não pudesse diagnosticar.

A confirmação de que um dos coordenadores da campanha de Dilma negociou com arapongas a elaboração de um dossiê antitucano, é apenas mais um capítulo dessa interminável narrativa brasileira. Na semana em que a pré-candidata petista empatou nas intenções de voto com José Serra, o Presidente Lula foi condenado pela quinta vez por propaganda eleitoral antecipada. Quinta!

Esse processo político corroído por imoralidades não está no começo e nem em seu ápice. De fato, a anestesia injetada há tempos já produziu efeito e tanto povão quanto políticos, iguais em suas hipocrisias, já não se importam mais com os meios utilizados, desde que o país “melhore”, cresça.

Apenas para limitar as incontáveis indecêndias aos partidos líderes, podemos citar a compra de votos pela emenda da reeleição capitaneada pelo falecido Sérgio Motta no governo Fernando Henrique, os mensalões de Lula & Zé “Sai de Retro” Dirceu no Congresso, e de Azeredo em Minas, a quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo -a quem queria-se incriminar – pelo poderoso Palocci, os aloprados da eleição paulista na primeira edição dos dossiês petistas…

Desde que Maluf começou a ser denunciado, repete-se a máxima de que é melhor quem “rouba mas faz” do que aquele que permanece inerte. O ditado regente típico de um povo absolutamente carente mostra-se ainda eficiente quando Dilma alcança Serra na corrida eleitoral. Pouco importa se os métodos são ilegais, pois, no fim das contas, vale a pena. O saldo entre pagar multas de 5 ou 10 mil reais frente ao crescimento de 5, 10, 15 pontos percentuais é altamente positivo. Essa é a matemática que vale. E enquanto continuar a valer a pena…bem, vocês sabem.

Não se engane quem pensa que os políticos são os únicos praticantes dessa distorção. Eles só agem assim porque quem vota neles é o povo que entende que, enquanto o Governo petista apresentar bons índices sociais e econômicos, toda ilegalidade será tolerada. Despersonificado o mito, Lula é o novo Maluf.

E pensar que o Presidente alemão acabou de renunciar ao cargo porque, mesmo sentindo-se mal-interpretado, acham que falou uma bobagem. Ah, se essa moda pega no Brasil…

Perspectiva

A vida é bem mais do que o que conhecemos.

22.5.10

Direto de Kentucky

Assistindo Late Show hoje, ouvi a história abaixo que se ajusta com o que tenho pensado e buscado viver.

"Eles tiveram notícia de que aquele sujeito, que havia se mudado de Chicago para o interior do Kentucky, era policial aposentado e costumava tocar gaita-de-fole em cerimônias para homenagear seus companheiros mortos em trabalho. Com a morte de um grande amigo, resolveram convidar o ex-policial para tocar no enterro. Apesar de não conhecer a família, de estar aposentado e já não tocar há algum tempo, aceitou.
Como estava na cidade há pouco tempo, acabou perdendo-se pelas estradas do interior, entrou em fazendas por engano e chegou 1 hora e meia atrasado ao sepultamento. Todos já haviam ido embora: pastor, familiares, amigos, apenas os coveiros descansavam a poucos metros de distância. Olhando o caixão já baixado, ainda que sozinho, começou a tocar sua gaita com a mesma emoção que tinha quando rendia as últimas homenagens a alguém próximo. E chorou enquanto tocava."

Viver a dor do outro, ainda que distante; usar seus talentos sem pedir nada em troca; dar seu tempo para cuidar de prioridades que não são suas. Isso faz toda a diferença. E cada um de nós, se quiser, pode fazer diferença e marcar a vida de muitos outros.

17.5.10

Ausência - de Vinícius de Moraes


Não bastassem as incomuns genialidade e sensibilidade de Vinícius, não tenho me forçado a achar definição pros meus dias e assim fujo dos meus pensamentos. Como o deleite na arte é certo, para não incorrer no abandono, deixo a beleza de quem entendeu o amor sem vulgarizá-lo, sem subestimá-lo, e sem jamais abandoná-lo:


"Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."

Confissões de dias difíceis


A confusão das últimas semanas tem tirado as letras de mim. É curioso porque, ao mesmo tempo em que estou invadido de palavras que voam, amontoam-se e formam pilhas de preocupação, fico tão perdido que já não sei direito o que sinto. Faz alguns dias que não sei o que sinto.
Raramente falo de casos, raramente falo de abstração - pelo menos aqui. Perigosamente falo de mim, daquilo que vi, do que vivi. Mais que tudo, do que senti.
Problema grave é que minha cota de onipotência está perto do fim, ao menos é assim que me sinto: fraco. Tenho esperado com angústia nos últimos dias por lampejos de brilhantismo, por mágicas mais que ilusórias, por milagres mais que improváveis. Deixar a mão estendida não tem sido suficiente para curar quem precisa e nem mesmo para aplacar minha infinita necessidade de socorrer a quem amo. Dias difíceis esses: sem respostas, sem milagres, sem palavras. Só de esperança.

10.5.10

União civil dos homossexuais

Sim, sou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo (parte 1). Além disso, concordo com a adoção de crianças por casais homossexuais (parte 2). Quem me conhece pode estranhar as afirmações pelo fato de eu ser cristão, ligado a igreja que não realiza esses ofícios e, por seus princípios, jamais os realizará ou incentivará. Nessa condição só vejo o casamento como lícito se for realizado entre homem e mulher.

Mas meu voto favorável a ambos os temas não está vinculado à fé que professo, mas à minha condição de cidadão. Enquanto cristão, mantenho-me aliado à visão religiosa do tema, o que não me impede de ter bons relacionamentos, respeitar e defender que os homossexuais tenham garantidos os mesmos direitos dos heterossexuais frente à Administração Pública.

Já se vão mais de 500 anos desde o Renascimento, momento histórico ao qual a Reforma Protestante está ligada. Nela, uma das mudanças propostas pelos reformadores era justamente a separação entre Estado e Igreja. Desde então essa ideia passou a ser incorporada aos fundamentos de diversos Países, tendo até hoje sua maior bandeira na França através do lema “liberdade, igualdade, fraternidade”. Igreja é igreja e deve manter sua convicções, manter sua ética, lutar para que a verdade na qual acredita seja praticada por seus líderes e liderados. Estado não é igreja. O Estado, na concepção romana, é um ente abstrato, impessoal, uma criação que tem como finalidade servir aos seus habitantes.

Dentro do Estado laico e distante do Teocrático, não consigo enxergar outra postura oficial senão a de garantia ampla de acesso igualitário aos direitos a todos os cidadãos. O cidadão usa o solo, paga imposto, compra, vende, vota e é votado independente de sua religião ou opção sexual. Esse Estado que não questiona a opção sexual para recolhimento de impostos, da mesma maneira não pode impor limitações aos direitos civis daqueles que, sexualmente, não seguem as tradições da maioria.

Ainda, o Estado não poderia impedir, como conseqüência lógica, o direito de herança ao companheiro(a) que, junto com seu parceiro(a) construiu certo patrimônio dentro de uma relação tida como casamento. “Dentro de uma relação tida como casamento” que precisa passar a ser chamada de casamento. Assim como os heretos têm direito a essa formalidade social que permeia o sonhos de quase todos nós, os homos não podem ter, enquanto cidadãos, esse sonho roubado.

Enfim, pregando uma tese antiga trazida pelos Reformadores da igreja, sustento que o Estado não pode nem deve estar vinculado à Eclesia, seja através da concessão de títulos, seja da doação de terras ou da imposição de suas doutrinas.

“A César o que é de César”….e de Julio, Serginho, Dicesar, Rick ou outro nome que quiser escolher.