Limites

Limites

5.4.10

Intensive Care Unit

No episódio "O coração de Wilson", House e Amber sofrem acidente num ônibus que termina, ele em coma e ela morta, no seguinte diálogo:

House- Você está morta?
Amber- Sim.
H- E eu?
A- Você ainda não.
(...)
H- A vida não deveria ser aleatória. Ela deveria levar dependentes arrogantes e misantropos, e não lindas jovens no ápice de sua paixão.
A- Essa autocomiseração não combina com você. Você está bem?
H- Não, não estou. Sei que Wilson não vai me perdoar.
A- É verdade, ele não vai te perdoar. Você precisa ir. Está na sua hora.
H- Eu não quero descer. Quero ficar aqui.
A- Por quê? Você não pode ficar.
H- Aqui eu não sinto dor, aqui eu não sou infeliz.
(...)
A- Adeus, House.

Por que transcrever esse diálogo? Por que falar em morte e quase-morte? Apenas para lembrar a mim mesmo que até os autossuficientes, até os desencanados, até os despreocupados têm seu dia de dor, de fraqueza e de não querer enfrentar seus problemas.

3.4.10

Contraponto


Diferente do que pode sugerir, contraponto não é o mesmo que contra-argumento. Contraponto vem da música e diz respeito a harmonia de vozes ou instrumentos. A semelhança dessas palavras acaba na sua estética, já que, transferidas para relacionamentos, preservam sua absoluta diferença e exercem influências distintas. Na verdade contraponto e contra-argumento não são semelhantes, mas não por isso são opostos.

A cada dia vemos com maior frequência as dificuldades de se manter ou desenvolver relacionamentos, agravadas em boa parte pela incapacidade mútua de um falar a língua do outro. Em reação ao que entendemos como incompreensão, falta de atenção ou de cuidado, fechamos-nos e elucubramos as interpretações que parecem mais lógicas àquele estado de coisas. Quando vivemos momentos que passam muito longe dos que idealizamos, e, principalmente quando a frustração desse ideal está ligada ao comportamento da(o) nossa(o) companheira(o), sentimo-nos autorizados a transbordar nossa dor através de contra-argumentos ferinos. Sem perceber, a cada dia minguando mais, reservando-nos mais, reagindo mais, agredindo mais, nossa palavra mais constante passa a ser o não.

Se estamos infelizes e insatisfeitos, se nos sentimos rejeitados e injustiçados, dificilmente somos capazes de concordar com o nosso companheiro mesmo quando ele tem razão. Assumimos a condição de contraditor primaz. Então é formado o círculo "rejeição-contraposição-aumento de insatisfação". Essa é uma espiral que ganha força até que um dos atingidos seja capaz de quebrar a fonte do vendaval, e, igualmente importante, que o outro esteja disposto a desenvolver novos hábitos.

Aqui entra o contraponto. Contraponto, como já dito, é a harmonia entre diferentes vozes ou instrumentos. Fica tão claro perbecer através desse exemplo que as diferenças podem ser utilizadas para a boa sonoridade, para a boa vibração. Ser capaz de ouvir e de encaixar distintos sons é o caminho para que a música tocada seja inspiração para a alma de quem toca e de quem ouve. Os tons e semi-tons, quando usados no momento errado, irritam o ouvido, desafinam e nos fazem querer levantar da cadeira e ir embora. É como o argumento que vira contra-argumento.

Definitivamente não é fácil encontrarmos os nossos contrapontos em outras pessoas. Decididamente, é tarefa das mais desgastantes, quando os encontramos, trabalhar para manter a afinação, a harmonia, e, ainda, ter talento para elevar o tom das notas que foram mal tocadas. Apesar disso, ainda não nos foi revelada satisfação maior do que a boa música, aquela que nos eleva e incentiva nosso espírito.

A definição que não é minha guardei há poucos dias: "amor é quando você encontra o contraponto da sua alma em outra pessoa". Não estamos falando de relacionamentos? Não começamos dizendo que contraponto e contra-argumento não são necessariamente opostos? Pois bem. De fato, não são. Quando somos capazes de entender que podemos tocar instrumentos diferentes ou cantar em tons diferentes, também conseguimos deixar de levantar contra-argumentos a cada contrariedade. Quando somos capazes de entender que os contra-argumentos podem ser utilizados como contraponto em nossos relacionamentos, também conseguimos deixar de usá-los como arma e passamos a vibrar em uníssono e a querer mais música.

1.4.10

Ao trabalho


A tristeza é mais fácil porque é uma rendição.
Já a felicidade, ah!, essa é trabalhosa depende de construção.

30.3.10

Acabou o Porto


Nos dias mais turvos, ela estava aqui
Nas noites de chuva, seu gosto me esquentou.
O que minha boca sentia era licor de cheiro ébrio, encantado: perfume de fruta e de álcool, sabor de calor e de fazer suar.
Seu gosto persistia na língua e embaralhava minha razão.
Que pena, hoje provei o último gole. Pela última vez, até buscá-la novamente, dormi tonto.
Hoje acabou minha garrafa de vinho do Porto.

27.3.10

Durma bem


Eu queria ter uma casa, uma casa ao lado de um lago.
A casa teria dois andares, no quarto uma mesa junto à janela de onde eu pudesse escrever e olhar as vinhas. Sim, eu queria ter vinhedos.
Eu queria morar na França, numa cidade pequena e andar por ruas de terra.
Queria ver poeira em vez de fumaça, queria não ter relógio. Eu teria uma moto.
Teria três filhos, ou quatro, quem sabe? Apenas uma mulher. Uma mulher até morrer, morrer feliz.
Eu queria aprender mais da vida, mais de gente, queria conhecer outros lugares. Queria que a vida fosse longa o bastante para pousar durante tempos em terras distantes. E sentir o cheiro, o gosto, ver o sentido que cada povo dá pros dias atuais, pros vindouros, pros incertos.
Queria escrever, e dançar, e ter um piano. Ou um violão. Tocaria com meus 3 ou 4 filhos. Cantaríamos juntos. Dançaria com a mãe deles.
Queria morar na cidade, ser prefeito, ajudar muita gente, fazer política em tudo. Não queria virar nome de rua ou de praça. Queria fazer leis, tocar projetos, mudar vidas.
Queria escrever textos com os quais outros se identificassem, queria escrever músicas e que elas ficassem guardadas como boas recordações. Queria que essas canções fossem para bons momentos.
Queria mais que um bom ano, um bom projeto ou um bom mês. Queria realizar sonhos sem prazo de validade.
Alguns deles vingariam, outros não. Queria ser forte pra buscá-los e não deixar com que ficassem somente como lista daquilo que jamais conseguirei contar.

26.3.10

Se não fossem vocês...

"O telefone não tocou e o carteiro só trouxe encartes, catálogos, nenhum postal. Passados muitos anos tenho ainda a lembrança de tanta gente marcante que dividiu segredos, sonhos e casos inesquecíveis. Impossível esquecer as velhas piadas que ninguém mais entendia. A vida passou e não sei mais onde eles estão.

Não sei como mas a terceira parte da vida tinha corrido e tudo que tinha eram boas recordações de um tempo que, mesmo tendo sido de poucos anos, havia gravado emoções que jamais se apagariam. Das amizades que um dia prometeram ser eternas não sabia sequer o endereço ou o telefone. Por onde andariam? Pra onde caminharam?

A tristeza não me corroía totalmente porque tinha muitos bons momentos passados. A vida que hoje era de uma monotonia deprimente, revelava-se mais brilhante quando trazia da juventude rostos que vira dia após dia, com quem havia descoberto quem eu era e quem gostaria de ser. A chama que ainda vivia era a do passado. Como foi bom!"

Infelizmente há quem não se orgulhe do que viveu. Há quem simplesmente não tenha história e funde suas esperanças nos dias que ainda virão, na expectativa de enfim viver intensamente e, um dia, ter do que lembrar. Todos precisam do passado, todos precisam do futuro, pois a falta de um ou de outro tira do presente boa parte do seu sentido.

Não ter referências afetivas, não ter amigos que lhe conheçam desde sempre o impede de ver confrontadas suas mudanças de temperamento, seu amadurecimento emocional, e, também, dos erros que permanecem apesar das rasteiras que deveriam ter-lhe ensinado a endireitar seus caminhos.

Não ter objetivos afeta a motivação, nos faz seguir sem saber pra onde, nos faz escolher sem saber o porquê. Daí a importância de buscar sempre novos caminhos, de preferência, contando com as conquistas que nos serão mais caras com o passar dos anos: os relacionamentos que fomos capazes de cultivar.

Relembrar é ótimo porque trazemos à tona das nossas caixas de memória sentimentos relacionados aos eventos que recordamos. Quando relembramos, sentimos de novo tanto o calor quanto o frio, a tremeção, a expectativa, a explosão de alegria... Feliz é quem tem do que falar, de quem falar, o que sentir. Feliz é quem tem histórias.

Mais feliz é quem continua vivendo-as. Com todas as agruras naturais aos relacionamentos, mas vivendo-as. Conseguir permanecer ao lado daqueles com quem você construiu sua história é desafio dos mais recompensantes mas não é fácil. É difícil porque, no desfiar da vida, aparecem oportunidades que nos levam pra longe, aparecem pessoas que nos levam pra longe e nos fazem mudar a maneira de pensar. É natural que nos alinhemos com quem comungamos gostos e ideiais, mas quando essa semelhança se desfaz, afastamo-nos. Quantos ficam?

O desafio de reviver talvez seja maior que o da primeira aproximação, da construção da amizade. Tudo que precisa ser reconstruído é mais difícil porque no começo não há marcas, não há queixas, não há conhecimento sobre aqueles defeitos que às vezes nos incomodam. Reviver é difícil, mas é gratificante. Reviver é escolher lutar por manter conosco as pessoas que aproximaram-se, contribuíram para parte da nossa personalidade e estarão sempre voltando naqueles sonhos estranhos que, vez por outra, surgem no meio da noite.

Claro que a vida não acaba quando deixamos pelo caminho nossos pilares, afinal, todo dia é dia de recomeçar, conhecer gente nova, iniciar novas relações, construir novas histórias. Mas, entre "lembrar de novo" e "viver de novo", entre a dura saudade e a possibilidade de olhar pro lado, viver "de novo e sempre" é bem melhor.

17.3.10

O Rio contra Ibsen

Não vou falar sobre o eterno 'Anão do Orçamento', Sr. Ibsen Pinheiro. Ele é apenas um dos que aproveitam-se das facilidades que a moral escorregadia do brasileiro aceita. Nunca é exaustivo lembrar que o voto secreto e a democracia vigoram nessa terra que "em se plantando, tudo dá", e esse cidadão foi eleito por votos que valem tanto quanto o meu e o seu.

Que fique o Deputado em defesa dos seus interesses e daqueles que o patrocinam, e nós do outro defendendo-nos de mais uma tunga. Digo mais um roubo em razão da recente história de perdas que o Rio de Janeiro suportou. Chega a ser cansativo ouvir a queixa de outros brasileiros acerca da favelização, do crime organizado, da falta de empregos, da desorganização, da sujeira que cobre as ruas, enfim, do visível e vergonhoso declínio vivido pelo estado que sempre projetou tão bem a imagem do Brasil mundo afora.

Esquecem-se os queixosos de informações que não são minhas e que certamente muitos dos que as lerão conhecem. A cidade que já foi capital da colônia no século XVII e, a partir de 1808, do Império Português, continuou como centro das decisões políticas até 21 de abril de 1960 com a mudança da capital da República para o interior do País.

A perda de relevante parte da sua população economicamente ativa (servidores públicos federais) deu início ao declínio da economia carioca com a diminuição não do prestígio político, não da capital, mas do capital circulante.

Não bastasse, o recém-criado Estado da Guanabara - que apesar de tudo ainda andava bem-, em 1974 sofreu novo golpe às suas finanças com a fusão ao Estado do Rio de Janeiro. Em suma, as verbas vindas de impostos e investimentos diretos que sustentavam o "Rio dos sonhos de todos os brasileiros" foram minguando ano após ano e, ainda, passaram e ser divididas com os demais municípios fluminenses a partir de 74.

Passaram-se 3 décadas de declínio e abandono. Justamente quando tanto a economia estadual quanto a organização municipal começam a dar mostras de uma enfim ressurreição, a estranha força que orientou os movimentos anteriores novamente vem tentar assaltar o povo que representa, com mais legitimidade a beleza, alegria e simpatia de todos os brasileiros.

A covardia contra o Rio é contra o Brasil. Desmoralizar a cidade que simboliza a beleza brasileira e permitir que, sem recursos, o abandono a ultraje cada vez mais é consentir que todos nós sejamos envergonhados. O Rio não é apenas uma cidade ou um estado, é o símbolo de uma Nação.

16.3.10

Relembrar ou Reviver?

Conversando com um amigo no último sábado falamos um pouco sobre a grande diferença entre 'relembrar' e 'reviver'. Quero pensar um pouco mais e maturar em palavras o resultado dessa troca. Em breve...

Curtas

Por alguma razão desconhecida gosto de biografias. Estou lendo a de Francisco de Assis Chateubriand Bandeira de Melo ("Chatô - O Rei do Brasil" de Fernando Morais) e confesso que tanto a história do homem quanto a escrita de Fernando têm me envolvido. Não sei se é o enredo que facilita o trabalho do escritor ou o talento deste que torna a prosa mais atraente. De qualquer maneira, hoje consegui romper a barreira das 200 páginas mas o final ainda está longe. Uma vida que rende 700 páginas bem escritas é raro. Sinceramente ainda não descobri se, dentro dos meus sonhos, prefiro ter o talento de quem é capaz de escrever um livro desses ou se o personagem central tão cheio de causos.

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Há alguns momentos em que me sinto incomodado a sair de casa e juntar-me à massa. Apesar de com o passar dos anos estar ficando avesso a multidões, aglomerações e afins, as conversas políticas que me atraem vez por outra cutucam o que, na falta de uma definição melhor, vou chamar de 'Minha Cidadania'.

Isso que para mim soa como dever cívico, como obrigação em engrossar o coro por mudanças, em exigir que a letargia seja extirpada, já me levou à passeata dos Caras Pintadas em 1992 e agora me incomoda a repetir o mesmo trajeto (Candelária-Cinelândia) contra a Emenda Ibsen.
Apesar da relevância do tema (tudo que envolve dinheiro.....), vejo como mais importante o engajamento tanto do Governo quanto das pessoas nessa briga. Há tempos estamos dormindo, deixamos o abandono nos cercar, os buracos nos engolirem, as favelas maltratarem os favelados e (ainda)não-favelados...

Certamente, caso aprovada a Emenda Ibsen, o substitutivo do Senador Pedro Simon ou qualquer outro golpe semelhante estaremos, povo do Rio de Janeiro, mais uma vez violentados em nome do que chamam de interesse nacional.

Quarta-feira estarei lá e voltarei pra falar mais sobre a recente história de perdas que temos sofrido desde 21 de abril de 1960.

12.3.10

Declarações Roubadas

Essa semana lembrei de Cazuza, ouvi umas músicas e me permiti apropriar-me de algumas das suas palavras. Coisas como: "contar besteiras", "tanta coisa em comum" e ter medo de dizer que te amo, outras como "deixar escapar segredos".

A singeleza de questões simples e que intimamente todos nós sonhamos viver um dia deixa nossa mente voar. Essas situações tão repetidas quando não prestamos atenção, estranhamente acabamos travando nas relações afetivas.

Talvez os medos, as obrigações ou os modelos pregados nos impeçam de sermos 'nós mesmos', 'simplesmente nós', talvez essas tramas nos impeçam de viver sem nó(s).